O Artigo

Agroindústria e suas perspectivas
Alberto Duque Portugal, Diretor-presidente da Embrapa
Data: 7/12/2004

O ambiente de abertura e globalização que predomina no cenário internacional, e, do lado brasileiro, a estabilização e a remoção de grande parte das barreiras para acesso ao mercado interno, têm estimulado uma concorrência acirrada no mercado nacional de alimentos.

Diante dessa alta competitividade, as empresas agroindustriais procuram novos paradigmas para o padrão gerencial e operacional, além da absoluta atenção ao consumidor como principal agente definidor dos padrões de qualidade. Buscam continuamente a redução de custos, seja pela racionalização dos processos, seja pelo incremento da produtividade.

Para escapar das contínuas reduções das margens de lucros provocadas pela competição, os produtores buscam vantagens competitivas por meio de inovações e da procura de nichos de mercado. Forçam, ainda, uma redução considerável do tempo de desenvolvimento de novas tecnologias e do ciclo de vida dos produtos ofertados. É sob estas condições que se desenvolve hoje a luta pela conquista e manutenção de espaços no mercado brasileiro de produtos agroalimentares.

E isso se justifica. O valor agregado à matéria-prima nos segmentos pós-porteira (pós-colheita, processamento, distribuição, mercado) passou a representar uma fatia destacada do agronegócio. O quadro abaixo mostra as dimensões do agribusiness mundial, em bilhões de dólares, e a participação de cada setor, em percentual.
Setores Anos
1950 2000 2028
US$ (%) US$ (%) US$ (%)
Insumos 44 (18) 500 (13) 700 (9)
Produção Agrícola 125 (32) 1.115 (15) 1.464 (10)
Processamento/Distribuição 250 (50) 4.000 (72) 8.000 (81)

Fonte: Ray Goldberg apud Machado Filho et.al. (1996)


Destaca-se a crescente participação no faturamento do setor de processamento e distribuição, área onde se insere o setor de agroindústria de alimentos.

Esses desafios também estão postos para a pesquisa agropecuária. Na Embrapa, o desenvolvimento de variedades e cultivares tem como pressuposto não só suas qualidades de resistência a doenças, desenvolvimento vegetativo ou produtividade, mas também as qualidades que facilitem o processamento, embalagem, transporte, armazenamento, etc.

A cada ano, os centros de pesquisa da Embrapa melhor se preparam para desenvolver pesquisa na área de transformação de produtos. O treinamento de seus pesquisadores, a construção e o equipamento de seus laboratórios, os processos mais avançados de pesquisa são melhorias permanentes para o desenvolvimento de novas tecnologias voltadas à agroindústria.

Por ser a agroindústria um segmento com grande capacidade de agregar valor à produção e gerar empregos, atenção especial deve ser dada à Região Nordeste. Contribuindo nesta direção a Embrapa inaugurou recentemente no campo experimental de Pacaj?s, uma fábrica-escola para processamento da amêndoa e do pedúnculo do caju. Essas instalações, pertencentes à Embrapa Agroindústria Tropical, localizada em Fortaleza, além de serem utilizadas para pesquisa, estão preparadas para o treinamento de produtores rurais nos processos de beneficiamento do caju. O objetivo é contribuir para melhorar, cada vez mais, a qualidade da castanha, um dos produtos de maior exportação do Ceará, agregar valor para os produtores e descobrir novas alternativas para o aproveitamento do pedúnculo do caju, cujo desperdício atinge 94% da produção ou cerca de um milhão de toneladas ano, apenas naquele Estado.

Acreditamos que haja boas condições para o desenvolvimento de pequenas agroindústrias no Nordeste. A questão é saber em que produtos isso é viável e que níveis de tecnologias agronômicas, agroindustriais e organizacionais são exigidos para a sustentabilidade dos empreendimentos. Naturalmente, existem melhores condições para a agroindustrialização em perímetros irrigados do que em áreas de sequeiro. Aliás, as agroindústrias atualmente existentes nos perímetros irrigados são prova de sua viabilidade.

Mas uma conclusão é clara: agroindústria não é viável sem organização dos produtores, quer seja em pequenas empresas, associações de cooperativas ou se integrando a empreendimentos de maior porte. As lições do Sul do Brasil são particularmente importantes. A viabilização de pequenos produtores de suínos, aves, leite e frutas, entre outros, só foi possível porque há agroindustrialização e a verticalização por intermédio de cooperativas ou sistemas integrados com empresas de grande porte. O desenvolvimento da agroindústria de pequeno porte no Nordeste não deverá ser diferente. Não podemos esquecer que os mercados estão cada vez mais exigentes e trabalhando com escala crescente e demandando suprimento e qualidade regulares.


 
 
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